segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A mulher-diabo e o homem-virtuoso

A Idade Média nos presenteou com a rejeição do corpo. Aquilo que antes era parte da integralidade do homem, passou a ser objeto de pecado, de ocultação, objeto de negação, de depósito de castigos, proibições, punições. O corpo era objeto de desejo e pecado. E o corpo da mulher, duplamente pecaminoso, foi demonizado, culpabilizado, exorcizado, punido, suplicado, queimado, enforcado, mutilado, muitas vezes escondido da barbárie e do desejo incontroláveis. A mulher desde então carrega o fardo do pecado, seu corpo é símbolo da volúpia desmedida, é o demônio que tenta o homem virtuoso, devoto, cristão. "O diabo é mulher e cheira como a rosa" cantam Papas da Língua.

Ora, pensa o homem-virtuoso, sendo esta mulher o próprio demônio que vem me tentar, por que eu permitirei que ela trabalhe aqui na minha empresa? Já não me basta eu ter que tolerá-la em minha casa, agora terei que aturar ela em meu trabalho também? E este homem-bondoso-virtuoso acabou permitindo, após um tempo, que esta mulher trabalhasse. E lá se foi a mulher-diabo trabalhar e provocar o homem-virtuoso.

Aconteceu que, em alguns lugares, a mulher-diabo executava seu trabalho melhor que o homem-virtuoso. E agora? Ela vai ser minha chefe, é isso? E o homem-virtuoso passou a competir com a mulher-diabo no mercado de trabalho. E pouco a pouco, a mulher-diabo foi infiltrando-se nos mais diferentes nichos ocupados pelos homens-virtuosos, inclusive na política. E a gota d'água, o ultraje maior, iniciou quando as mulheres-diabos começaram a construir mudanças sociais e políticas, mudanças de educação, de políticas públicas, de saúde, conquistas de direitos; quando começaram a assumir papéis importantes no governo e na economia. Ora, veja, chegaram à presidência da República, que isso? Isso não vai parar?, indaga-se desolado o homem-virtuoso.

E a mulher-diabo sorri alegremente. Ainda há muito por vir. Estamos apenas começando.



segunda-feira, 20 de junho de 2016

Nós e nossos corpos dóceis*

Quando li a notícia, fiquei chocada. Houve quem me perguntasse em qual país isso aconteceu. Embasbacada, respondi que a menina havia sido estuprada no Rio de Janeiro. O almoço seguiu silencioso. Reflexiva, percebi que a vida das mulheres não vale nada. Nada mesmo. Somos formigas sendo esmagadas em um país de machões. Somos chama que se apaga com o sopro da violência. Vivemos o reflexo de uma sociedade injusta e machista. E não sabemos até onde isso vai chegar.

Foucault aborda o conceito de ‘corpos dóceis’, que é quando o corpo passa a ser objeto e alvo de poder, um“corpo que se manipula, se modela, se treina, que obedece, responde, se torna hábil ou cujas forças se multiplicam”¹. Através da manipulação daquele corpo, ele se torna dócil, podendo ser transformado e aperfeiçoado. O corpo torna-se um objeto social no qual estão impostas as limitações, as proibições e as obrigações. A disciplina sobre o corpo permite o controle minucioso das operações, promovendo a relação mecânica do poder.
Essa noção de ‘corpo dócil’ está enraizada em nossa sociedade. Seja na fabricação de modelos de beleza, seja para a produção de mão de obra eficiente. A disciplina sobre o corpo vem produzindo, ao longo das décadas, problemas sociais que hoje aprofundam-se com o discurso do ódio e a promoção da violência. A onda do “politicamente correto” acabou, dando espaço as mais diversas manifestações que, em nome da liberdade individual, convocam fiéis dos mais radicais e disseminam seu discurso hostil. Me parece que ser machista está na moda, ser racista está na moda, ser homofóbico está na moda, tudo isso aclamado e corroborado por Deus em defesa da família, da moral e dos bons costumes.

Mas isso não me parece certo.

Historicamente, as mulheres vêm sofrendo as consequências da disciplina sobre os corpos. O corpo da mulher representa um modelo de sociedade onde tudo aquilo que não se encaixa no modelo idealizado deve ser combatido ferrenhamente. Não é à toa que vivemos um momento no qual o discurso do ódio se alastra com a velocidade de um clique, um momento em que a violência toma conta das ruas e dos lares, um momento onde não há respeito sobre si, muito menos sobre o outro. Tempos sombrios de intolerância generalizada.
Nossos corpos devem ser submissos, devemos ser dóceis, boas esposas e mães zelosas. Devemos cuidar de nossa aparência, aceitar a violência caladas, de preferência, acostumar-nos a ela. Devemos trabalhar o dia todo e chegar em casa com disposição para cuidar dos filhos, da comida, da louça, das roupas, dos temas de casa, do banho, das contas, sem reclamar, sem irritação, sem cansar, sem desistir, pois isso tudo é normal e sempre foi assim. Devemos agradar nossos maridos, satisfazê-los sexualmente, sempre sexy sem ser vulgar, mas apenas entre quatro paredes, pois mulher tem que ser puta na cama e não na fama. Se apanhamos, a culpa é nossa; se somos demitidas, a culpa é nossa; se nossos filhos são ladrões, drogados ou traficantes, a culpa é nossa; se somos estupradas, a culpa é nossa; se somos mães solteiras, a culpa é nossa; se somos assassinadas, a culpa é nossa; de novo e de novo outra vez. Se somos estupradas diversas vezes por diferentes homens durante vários dias, a culpa certamente é nossa. Pois merecemos. Nós pedimos. A culpa é sempre nossa. E não somos vítimas. Apenas nos fazemos de coitadas.

Esse é o peso que nossos corpos dóceis devem suportar. Todos os dias. Até quando?


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Referências
¹FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: História da violência nas prisões. Trad: Ligia M. Podeé Vassallo. Petrópolis: Vozes, 1987, p. 125.

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*Este texto foi publicado originalmente em Frida Diria, em 10 de junho de 2016.



terça-feira, 10 de maio de 2016

Bela, recatada e do lar: um manifesto

Demorei um tempo para finalizar esse texto. Pensei e refleti muito, pois ainda hoje acontecem coisas que me deixam embasbacada quando falamos sobre as mulheres. Quando falamos no lugar social que nós mulheres queremos ocupar e o quanto isso reverbera em nossa sociedade. Pois (sim) nós mulheres ocupamos e continuaremos a ocupar lugares sociais, não ficaremos apenas em casa sendo belas, recatadas e "do lar". Nada contra, mas queremos mais.

Esse manifesto é essencialmente dirigido às mulheres. A todas que, assim como eu, manifestaram-se nas redes sociais contra tudo aquilo que representa hoje ser "bela", "recatada" e "do lar". Mas, principalmente, a todas aquelas mulheres que não tem voz, que não tem vez, que são belas, recatadas e do lar por ser essa a única realidade que elas conhecem. Ou porque não conseguem romper com esse modelo, ou tem medo, etc. 

E, afinal, o que representa hoje ser "bela, recatada e do lar"? É ruim ser assim? Primeiramente, já deixo bem claro que não há nada de errado em ser bela, recatada e do lar. Se (e somente se) isso for uma opção da mulher. Cada uma deve ser aquilo que quiser e quem não sabe o que quer, que tenha a liberdade de descobrir. E se não quiser ser nada, tudo bem também. Porém, o significado de ser "bela, recatada e do lar" no contexto da revista Veja, é muito profundo e profere um modelo de sociedade. Remete ao modelo patriarcal de sociedade em que o homem é o provedor da família enquanto a mulher cuida da casa e dos filhos, recatada e resignada em sua posição inferior, sem direito a desejos e vontades, mantendo sua beleza para que o marido possa lhe usar. Uma mulher que tem valor, que é para casar, que faz um homem ser um homem de sorte.

Essa definição lhe parece estranha? Muito antiga? Todo mundo já falou sobre isso, e daí? Bom, eu moro em uma capital de um dos Estados considerado mais politizados de nosso imenso país. Se eu olhar com cuidado para minha cidade, para minha vizinhança, para minha família, consigo ver presente esse modelo de mulher "bela, recatada e do lar", arcaico, patriarcal, que aprisiona suas mulheres em casa no cuidado dos filhos e dos afazeres domésticos. Modelo esse defendido e mantido por mulheres e homens, passando de geração para geração. Modelo esse que, aos poucos, vamos rompendo, trazendo novas possibilidades, novas vontades, novos caminhos. Modelo esse muito presente em lugares onde a informação e a política ainda caminham a passos lentos e pequenos, lugares onde ainda há um patriarcado muito forte, lugares que não enxergamos pois não estão no facebook ou no instagram. Lugares onde as mulheres não se manifestam pois isso não faz sentido na vida delas, pois elas estão bem casadas, em suas casas, cuidando de seus filhos enquanto seus maridos trabalham e frequentam bordéis (sim, gente, isso acontece!). Lugares esses que elegem deputados que, ao votar sobre o impeachment de nossa presidente, clamam pela família e por Deus, pela moral, pela ética e pelos bons costumes. 

Pensar a política em nosso país, ser contra ou a favor do impeachment, mais do que uma questão puramente política e econômica, é também uma questão social, pois todo o projeto político de governo traz consigo um modelo de sociedade para a qual se vai governar. Para mim, está bem claro. Naquele domingo, votou-se a favor do impeachment de uma presidente mulher, a primeira de nosso país (e isso é importante sim!), que militou contra a ditadura militar, que foi presa e torturada, que teve seus direitos políticos cassados e que sobreviveu a tudo isso. Na segunda-feira, após aprovação do impeachment, somos apresentados ao modelo de família brasileira ideal e perfeita, onde os homens mandam e as mulheres obedecem. Onde os homens governam, enquanto as mulheres lavam a louça e depilam suas pernas. Onde mulher boa, é mulher "do lar". E isso basta.

Nesses termos, você pode até achar que é exagero de minha parte, mas acredito que se pensarmos a base social de nosso país, chegaremos a este modelo ideal de família. Veremos com clareza, que existem muito mais Bolsonaros por aí do que imaginamos. Perceberemos que não é impossível (talvez nem difícil) o retorno dos valores tradicionais como ideal de sociedade brasileira. 

Não tenho nada contra mulheres que não trabalham e ficam em casa cuidando de seus filhos e dos afazeres domésticos, enquanto seus maridos trabalham. Acredito que este é apenas um dos diversos modos de se constituir uma família. Este é apenas um dos diversos modos de se viver em nossa sociedade. Acredito que todas as mulheres são belas, que apenas algumas são recatadas e que ser "do lar" deva ser uma opção e não a única. Acredito que mulheres que trabalham têm valor, que mulheres que não tem filhos têm valor, que mulheres que gostam de mulheres têm valor e que cada mulher decide o que é melhor para o seu corpo. Que as mulheres de todos os nossos "brasis" sejam representadas, ouvidas e, acima de tudo, respeitadas. Seja de shortinho ou de vestido abaixo do joelho, seja vadia ou recatada, seja trabalhando ou ficando em casa. Que ecoem e reverberem os nossos gritos. Que não nos calemos. Ainda há muito caminho para caminhar.



quinta-feira, 17 de março de 2016

Em qual lado você está?

Imagine você morar em um país onde o cafezinho custe 50 centavos e não 3 reais. Imagine você morar em um país onde a passagem de ônibus é 2 reais e estudante é isento. Imagine você morar em um país com preços baixos para alimentação e itens básicos de consumo. Imagine você morar em um país com segurança dia e noite, podendo andar pelas ruas tranquilamente as 10 da manhã ou as 2 da madrugada. Imagine você morar em um país onde a educação de melhor qualidade é a educação pública. Um país onde não hajam filas nos hospitais. Um país sem miséria, sem pobreza. Um país sem corrupção. Um país em que quem rouba, seja dos cofres públicos, seja de entidades privadas, seja uma bolsa no meio da multidão, tenha a pena devida e justa. Já se imaginou? É esse país que queremos?

Existe, no Brasil, uma linha muito tênue entre público e privado, entre pessoas e partidos, entre legalidade e ética. Ao mesmo tempo que existem lados opostos tão radicais, o meio campo está difuso e confuso. E muitas coisas acontecem entre uma ponta e outra. Coisas possíveis e coisas inacreditáveis. Vivemos hoje um momento histórico e cada um quer escrever a história do seu jeito. Cada um quer mudar o rumo da história do seu jeito. Cada um quer defender o seu rabo.

Este tempo que vivemos hoje pede atenção, calma e análise. Mas o que vemos são pessoas desnorteadas querendo tomar um lado da mesma moeda. Isso não me parece certo. Tudo está acontecendo em uma velocidade tão rápida que não temos a pausa necessária à reflexão. Precisamos (e muito) refletir. Caso contrário, somos tomados por um fervor que nos torna violentos, agressivos, radicais, acirrados. A velocidade é característica de nosso tempo. Mas ela também pode nos engolir.

Estamos fartos de corrupção. Estamos fartos dessa política podre que visa o enriquecimento dos partidos aos invés de um governo que, de fato, governe em prol da nossa sociedade. Estamos fartos de pagar 5 reais por 3 bananas. Chegamos ao ponto da saturação. Por isso a revolta, por isso a indignação, por isso o povo vai às ruas. Porém, não podemos deixar de considerar que nós, brasileiros, majoritariamente, só pensamos em política quando falamos em eleições. Ou quando somos excitados por notícias de corrupção. Nós não exercemos nossa cidadania no dia a dia. Aplicamos os princípios da moralidade ao outro e não aplicamos a nós mesmos. 

Não aprendemos a ser cidadãos e sim consumidores. E é como consumidores que nos voltamos contra o governo. Não queremos um cafezinho que custe 50 centavos, queremos ter poder aquisitivo para pagar os 3 reais do café. Não queremos SUS, queremos poder ter plano de saúde. Não queremos escolas públicas, queremos ganhar o suficiente para poder pagar uma escola particular. Não queremos andar na rua as 2 da madrugada com segurança, queremos ter dinheiro para comprar um carro maravilhoso e caro para não precisar andar na rua de madrugada. Queremos comprar e consumir e não melhorias nos serviços públicos. E é desta forma que lidamos com o governo, com os políticos, com o discurso do "pago meus impostos". Sendo que a cidadania é muito mais, é muito maior. A cidadania é cotidiana. Criticamos os políticos e governantes por fraudes e desvios, mas tudo bem pegar canetas e pacotes de folhas do trabalho e levar pra casa para uso pessoal. Criticamos a posse de Lula como ministro, mas tudo bem em usar o cargo ou influência para conseguir informações privilegiadas. Criticamos a ilegalidade dos atos dos governos, mas temos todo o direito que gritar e xingar se perdemos o prazo legal para requerimento de qualquer coisa. Criticamos as manobras governamentais e políticas que vemos todos os dias na mídia, mas tudo bem furar a fila gigantesca do busão. Não somos cidadãos. Não sabemos ser.

Lula como ministro está feito. É legal, ou seja, está amparado pela lei. Cargos de confiança são de livre nomeação e exoneração. Está na lei. Se a presidente está impedida de assumir o cargo, seja por renúncia, seja por impeachment, quem assume é o vice. Está na lei também. A pergunta que devemos fazer é mais profunda: é ÉTICO Lula ser ministro em um momento político como esse? É MORAL a Dilma nomeá-lo depois de tantas denúncias? Lei e ética são coisas distintas. Falta ética em nosso governo. Falta ética em nossas vidas.

Se eu aprendi algo com a filosofia que me valeu para a vida foi a análise e a reflexão. Principalmente em tempos fervorosos como esses que vivemos hoje. Precisamos parar para pensar, refletir, respirar fundo e nos perguntarmos: qual o Brasil que queremos? O que você está disposto a fazer para tornar nosso país melhor?




terça-feira, 8 de março de 2016

Sobre mulheres e rosas

Hoje pela manhã ouvi que hoje é o dia das mulheres ganharem rosas pelo seu dia. E, ao longo do dia, vi diversas mulheres segurando orgulhosas suas rosas lindas, perfeitas e sem espinhos. Fiquei pensando nas rosas sem espinhos. Afinal, acredito que os espinhos devem ter alguma utilidade, não é mesmo?

Acredito que nós mulheres somos como as rosas. Nascemos cheias de espinhos que vamos perdendo e cortando ao longo de nossa vida. Nascemos livres e vamos nos aprisionando com o passar do tempo. A sociedade tenta [o tempo todo] nos moldar como perfeitas rosas sem espinhos e vamos tentando fugir das podas para manter nossos espinhos. Ou pelo menos algum deles.

Não pode ser gorda, não pode ser muito magra. Não pode ser muito alta nem muito baixa. Não pode falar demais, mas também não pode ser calada. Não pode cabelo muito curto nem muito comprido. Bem capaz ter cabelo crespo! Bom mesmo é que seja liso. Não pode usar shortinho, mas [por favor] mostre seus peitos. E balance também. Use roupas apertadas que mostrem as curvas. Afinal, mulheres tem que ter curvas. Não pode abortar, melhor mesmo é ser mãe solteira, te rala. Ninguém mandou não usar camisinha ou não tomar pílula. Se não trabalha, é escorada. Mulheres não sabem dirigir. Mulheres devem pilotar o fogão. Mulheres sempre sabem porquê estão apanhando. Mulheres tem medo de baratas. Mulheres precisam ser submissas. Meninas de 10 anos já são capazes de seduzir. Se sabe cozinhar, já pode casar. Se não cozinha, que pelo menos cuide da casa, seja uma mãe zelosa e boa esposa. Se trabalha, é muito independente. Se está de saia curta, merece ser estuprada. Se vai de vestido para o trabalho, pode ser assediada. Se denuncia assédio, é mentirosa. Se está na rua à noite, não se respeita. Se transa na primeira noite, é vagabunda. Se dá opinião, está se expondo. Se beija muito na balada, é puta. Se transa porque está com vontade, é vadia. Se não ama ser mãe, é vadia. Se discute política, é vadia.  Se defende os direitos da mulher, é vadia. Se fala sobre machismo, é vadia. Se é homossexual, é vadia. 

Ao longo de nossa vida toda sofremos com nosso corpo, com nossas atitudes, com nossas escolhas, com nosso jeito de ser. Sofremos a com violência, com o medo, com o machismo, com os falsos moralistas, com as regras e normas sociais. Sofremos caladas dia a dia. Sofremos sem saber o que fazer. Sofremos sozinhas.

Entendo que o Dia da Mulher é um momento para pensarmos o papel da mulher na sociedade, no mercado de trabalho, nas relações institucionais, na política, na escola, no lar, na criação dos filhos... Pensarmos a posição feminina em todos os lugares que ocupamos. Pensarmos, discutirmos e construirmos. Pensarmos em termos de justiça, de igualdade de salários e condições de vida. De pensarmos as nossas escolhas e nossos direitos. De respeitarmos nossos corpos, de escolhermos de que maneira queremos viver. 

Nada contra as rosas lindas e sem espinhos. Acredito ser este um gesto de carinho e reconhecimento. Mas, carinho por quem? Reconhecimento pelo quê?

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Não é pelo shortinho

O que mais me impressiona no ser humano é sua capacidade de dissimular, de distorcer coisas, opiniões, fatos, ideias, campanhas, manifestações... E, principalmente, me impressiona a capacidade de simplificação de coisas complexas, não dando as coisas complexas a sua devida importância. 

Existe um abaixo-assinado em que meninas de 13 a 17 anos estão exigindo poder usar short na escola durante o verão. A reivindicação é legítima, pois vivemos em uma cidade muito quente, sentimos muito calor e nós mulheres saímos na rua assim, de shortinho mesmo. Porém, em meio a todas as discussões que estão sendo levantadas, eu (ainda) fico pasma com a quantidade de pessoas julgando essas meninas, ao invés de apoiá-las. Pasmo (ainda) com a quantidade de pessoas que levam para o lado da erotização dos corpos. Pasmo (ainda) com os xingamentos sujos e nojentos. Pasmo (ainda) com a naturalidade que as pessoas julgam e condenam os outros. Como diz meu pai "Um diz 'mata' e o outro diz 'enforca!'". É uma caçada às bruxas do século XXI.

Vivemos em uma sociedade machista. Uma sociedade que oprime as mulheres. Que chama de vadia aquelas que lutam por seus direitos e não se calam. Uma sociedade que não nos permite abortar com saúde. Uma sociedade que, nas palavras de Foucault, quer docilizar nossos corpos. Diante disso, nós vadias não nos calamos, gritamos, clamamos por nossos direitos, por nossos corpos, por nossa liberdade, por nossas vontades. 

Só que essa busca incomoda, os gritos ensurdecem, nosso clamor irrita, nossa chama libertária queima. Incomodamos homens e mulheres machistas que não querem uma sociedade mais igualitária e justa, que não conseguem ver o espaço da mulher como um espaço democrático, de luta, de direitos, de individualidades, de liberdades, de saberes, de querer, de conquistas. Irritamos todos aqueles que se sentem ameaçados pela nossa liberdade, pela nossa capacidade de conquistas, pela nossa inteligência, pelas nossas vontades. Incomodamos aqueles que estão acomodados em sua posição de poder. Afinal de contas, é disso que se trata: relações de poder.

Voltando às gurias do abaixo-assinado. Penso que as invejo. Eu tenho 29 anos e só fui pensar na questão da mulher com mais de 20. Me incluí no discurso feminista há menos de 5 anos. Essas meninas com 13, 15 anos já têm claro seu espaço de lutas. E dentro da escola! Escola: o lugar que vamos desde muito cedo para nos desenvolvermos, crescermos, sermos cidadãos. Escola: o lugar onde somos educados a pensar e viver. Escola: o nosso primeiro lugar de lutas. As invejo porque eu gostaria de ter estudado em uma escola que me provocasse a vontade de lutar pelo meu espaço social, pelo meu corpo, pelo meu ser. Eu queria ter estudado em uma escola que me desse aulas de matemática em quantidade equivalente as aulas de filosofia. Eu queria ter estudado em uma escola que me fizesse perceber que o corpo é meu, que eu faço com ele o que eu quiser, inclusive um abaixo-assinado para usar short nesse calor massacrante que vivemos nos verões porto-alegrenses.

Essas meninas desta escola colocam mais uma vez o machismo em discussão. E discutir o machismo incomoda, pois não conseguimos nos dar conta de como ele está enraizado em nossas práticas sociais. O machismo cresce e se fortalece em nossos pensamentos, mesmo quando não queremos. E quando falamos o óbvio, somos taxadas de "exageradas", "histéricas", "frescas", ou como diz a Fernanda Torres, "vitimizamos o discurso feminista". Ah, tenha dó!

Precisamos virar a página e avançar. Queremos a liberdade e a segurança de ir e vir. Queremos ser gordas ou magras, altas ou baixas, loiras ou morenas. Queremos ser livres para escolhermos ter filhos ou não. Queremos usar salto ou chinelo, queremos usar calça ou short. Queremos ser nós mesmas, sem padrões e vontades alheias aquilo que reside em nós. Queremos ser ouvidas e respeitadas. Queremos ser mulheres em nossa plenitude feminina. Queremos apenas respeito para sermos aquilo que quisermos ser.



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Eu tentei

Acho que desde nova eu já sabia que era diferente. Desde nova já me percebia com pensamentos incomuns, querendo fugir do pensar mediano, midiático, senso comum. Desde nova eu não me encaixava nos grupos de pessoas populares no colégio. E eu nem queria. Muito menos me importava. Eu gostava de ser eu, mas não podia dizer isso para todos, pois eu era diferente.

Eu sempre fui gordinha. Sempre. Por muitos anos eu tentei ser magra e emagrecer a todo custo. Por muitos anos eu acreditei que só seria bonita, aceita, rodeada de amigos e feliz (sim!) se fosse magra. Por muito tempo eu realmente achei que se eu fosse magra o mundo se abriria para mim e eu viveria magicamente feliz, como nos filmes da Disney. Ser gorda era meu desafio e eu devia superá-lo. E eu tentei. Tentei muito. Muito mesmo. As vezes acho que ainda tento, mas não fico mais me punindo. 

Eu tentei inúmeras vezes entrar numa calça jeans 36 que empina a bunda e te deixa super gostosa. Eu tentei entrar naquelas blusas coladas, que espremem teus órgãos só pra empinar os peitos e definir a cintura. E eu nem tenho cintura! Eu tentei esconder os pneus, não balançar tanto os braços, fazer todos os truques que as revistas mandam, usar calças justas e blusas largas, colocar cinto mais acima da cintura, comer só laranja, tomar suco de berinjela. Dietas das mais loucas: da lua, do sol, do abacaxi, da sopa, da maçã, todas as frutas, não comer carne, comer só carne. Eu fiz. Li livros e mais livros de dietas. Me enganava toda vez que comprava um tênis novo, pensando "agora eu começo a academia". Só me iludi. E fui iludida também.

Sempre corri atrás de uma ideia de felicidade que me arrebatava todos os dias. Novelas, filmes, seriados, livros, músicas, revistas: todos me diziam "seja magra que será feliz". Um mantra fácil de decorar e impossível de seguir. Por quê? Porque não sou magra, minha estrutura não é magra, meus prazeres não são magros, minha felicidade não é magra. 

Demorei bastante tempo para me descobrir não-magra e muito mais tempo ainda para me aceitar assim. Muito tempo até perceber que como certinho, mas sou sedentária. Muito tempo até desencanar que eu prefiro sim ler um livro do que puxar ferro na academia. Muito tempo até entender que tenho fome de lasanha, batata frita, pizza e não fome de alface com rúcula. Muito tempo para equilibrar a mente, acalmar o coração, chutar o balde e ser feliz. Feliz AND gordinha.

Demorei mais tempo ainda para perceber que eu tenho amigos. E já tinha lá naquela época do colégio, mesmo sendo "diferente", gordinha e tímida. Demorei muito tempo para perceber que as pessoas poderiam gostar de mim pelo que eu sou e também pelo meu corpo. Pois assim como tem gente que gosta do corpo magro, tem quem goste do corpo gordo.

Hoje já consigo diferenciar magreza de bulimia (que eu também tive). Consigo diferenciar magreza e comer bem. Consigo diferenciar magreza de saúde. E comer bem e saúde eu tenho bastante! Só sou gorda. Ou gordinha, como alguns preferem chamar. Enfim, não sou magra. Nunca serei. E tudo bem. A vida segue.